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700 anos

Eles se reencontravam, finalmente, após 700 anos.

As mudanças eram tão grandes e tão aparentes que o único fator que os faziam se reconhecer era o seus olhos. Pois não importa o quanto alguem suba ou caia, os olhos são proibidos de mudar.

O momento não foi planejado por eles. Entretando, também não poderia ter sido evitado. Era profetizado, era inevitável, era a hora.

Não haveriam diálogos nem discussões. Não estavam ali para isso. Esses ventos havia, a muito, passado. O objetivo desse encontro era simples e direto.

Ela havia apagado seu passado. Atraves de ferro e fogo, reduziu à cinzas sua imagem e seguiu. Cada vez mais penosa, cada vez menos segura.

Já ele, por outro lado, amarrou seu passado nas costas. Limpo e claro, estava em um recomeço para algo que nunca havia terminado.

A principio confusos, eles passaram a caminhar em circulos, espada e lança à mão. O céu se tornou marrom e, antes mesmo da investida, ele se viu derrotado.

Assim como não escolheu estar ali, não pode escolher o resultado. A cor disse, a cor comanda.

E ele já estava caindo. Rápido. Com um último olhar ao topo do monte, viu ela, com a lança cravada no chão ao seu lado. Encarando-o com seus olhos brancos, ela o apavorou, quando eles começaram a mudar.

Como fumaça preenchendo uma sala, eles se tornaram vermelhos.

Ela nao tinha esse direito, e ele não esqueceria essa injustiça, essa traição à propria traição.

E ele continuou caindo, atravessou núvens e sumiu da vista dela, que permaneceu mais tempo ali encima, encarando sem pressa as núvens abaixo e, depois, o céu marrom acima.
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After the Disaster

O garoto olha horrorizado o campo. Uma lágrima cai de seu olho, seguida por várias outras. Não consegue segurá-las. Mal tem forças para secá-las. Toda sua atenção esta presa no que antes era verde e florido, um lindo colorido de pétalas e aromas agora é rochoso e triste. A fumaça cinza pairando no ar. Não há mais vida naquele lugar de harmonia. Não há mais nada.

Caindo de joelhos, ele não consegue entender totalmente o que causou aquilo. A um dia atrás tudo parecia bem. A horas atrás ele estava sentado na fonte, banhando-se do mais puro mel. E agora, com a cabeça doendo e os olhos inchados, ele apenas observa.

Atrás dele, uma silhueta passa despercebida, se aproximando, até se parar do lado do menino. Uma mão pesada pousa em seu ombro, o velho encapuzado não chora, apenas sorri com uma expressão séria.

"Nada esta perdido, dentro de você esta a vontade de seguir e reconstruir". Disse o ancião, antes de se virar e partir de volta para seu caminho.

Mas o jovem não via mais isso. Quando a última lágrima caiu do rosto, ela evaporou antes de alcançar o solo. O olho, antes azul, agora se assemelhava a um vermelho mais forte que o sangue. O sorriso no rosto era desgostoso, quase indiferente com tudo em volta. Nos pensamentos, pouca coisa se fixava. Do mais triste ao mais feliz, tudo passava rápido, lembranças começavam a virar sombra.

Não havia mais tristeza, não havia mais alegria, não havia mais carinho. Não havia mais nada.

A pedra palpitava dolorosamente. Era a pior escolha, e jamais levaria a luz alguma.

Mas ele não havia escolhido a luz. O caminho árduo e justo não tentava mais. Na destruição que ele causou, percebeu-se o êxtase. E cada vez querendo mais, deitou-se e aproveitou o calor.
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